Ser reconhecida internacionalmente como centro de excelência em qualificação profissional e poder contribuir para o desenvolvimento da Marinha Mercante brasileira é motivo de orgulho para a Fundação Homem do Mar – FHM. Em paralelo ao seu portfólio de cursos, a FHM realiza trabalhos de consultoria nos setores aquaviário e portuário. Seus profissionais têm larga experiência e trabalham em conjunto para desenvolver estudos em qualquer área da navegação. E, nesses trabalhos, a segurança tem prioridade máxima. O transporte marítimo está longe de ser uma atividade livre de riscos e os diversos setores que ele agrega necessitam de profissionais bem preparados. Qualquer que seja o tipo de embarcação, o marítimo e todos os atores envolvidos em uma operação precisam estar cientes de suas responsabilidades e seguros ao desempenhar suas funções, antecipando riscos e evitando erros.

A equipe formada por Ernesto Júnior, Tamara Furtado e Jeferson Carvalho desenvolveu um modelo matemático para análises de manobrabilidade no Rio Trombetas (PA))

Um relatório divulgado pela Diretoria de Portos e Costas – DPC com a lista dos Inquéritos Administrativos sobre Acidentes e Fatos da Navegação – IAFN registrados em 2018, mostra 772 ocorrências. Em 2019, até 30 de abril, foram 288. Destas, 17 estão relacionadas a encalhes e 26 a colisões.

Os acidentes listados no levantamento feito pela DPC podem ocorrer tanto em alto mar quanto em operações de atracação e desatracação nos terminais portuários ou durante travessias em canais de navegação. Condições ambientais extremas, calados insuficientes, embarcações com tamanho inadequado para determinados trechos e falhas de comunicação são alguns dos fatores que levam a tais ocorrências.

O Capitão de Longo Curso – CLC Claudio Barbosa, instrutor de Posicionamento Dinâmico na FHM, tem vasta experiência em todo tipo de navegação e ressalta a importância da eficiência das operações. “Quando você entra numa baía, demandando barra, saindo de barra, fazendo atracação, desatracação, fundeio, com Prático a bordo, as manobras são críticas. É preciso todo o staff do passadiço e atenção redobrada para dar tudo certo”, alerta

“Quando você entra numa baía, demandando barra, saindo de barra, fazendo atracação, desatracação, fundeio, com prático a bordo, as manobras são críticas. É preciso todo o staff do passadiço e atenção redobrada para dar tudo certo”

O CLC Claudio Barbosa testou navios novos tendo como base análises de simulações.

Tendo no currículo a retirada de dois navios novos, o Oficial enfrentou situações climáticas completamente diferentes nas duas ocasiões. Com o primeiro, o Skandi Santos, fez testes em um fiorde na Noruega. “A experiência foi extremamente gratificante, porque aquela é uma área que tem uma profundidade muito grande, de 100, 200, até 300 metros, mas praticamente não tem vento nem corrente atuando no navio. Já no Olinda, em janeiro deste ano, o teste foi em alto mar. Aí você trabalha com profundidades diferentes, vento, corrente e swell atuando em cima do navio. Isso, claro, faz com que as experiências e os resultados sejam bem diferentes”, comparou.

Outro Capitão de Longo Curso, José Bruno Oliveira Filho, já aposentado, recorda de uma experiência desafiadora do tempo em que atuava como piloto de uma embarcação da Transpetro, navegando pelo Canal de Bacabal, no Rio Trombetas, no Pará. “Esse canal é muito complexo, tem muitos bancos de areia que se movimentam e atrapalham a navegação. Na minha época, quando não tínhamos tanta tecnologia disponível, era bem difícil. Uma vez, passei por lá quando estavam ocorrendo mudanças e a Diretoria de Hidrografia e Navegação da Marinha estava finalizando um estudo. Então, tivemos de esperar as novas instruções da DHN”, lembra.

O canal mencionado faz parte do cenário de um estudo encomendado à FHM no qual estão sendo feitas análises para o tráfego de um determinado navio. “Trata-se de um trecho bem peculiar do Rio Trombetas e estamos estudando o comportamento da embarcação nele. Vamos observar como a manobra está sendo feita, apontar os riscos e comparar com os procedimentos adotados anteriormente”, explica Jeferson Carvalho, Consultor Naval da FHM.

Para as análises de manobrabilidade, a FHM desenvolve um modelo matemático que serve para avaliar, entre outras questões, os fenômenos de impacto hidrodinâmico durante a navegação. “Nós criamos um cenário em que pusemos um navio Panamax e um de bauxita para navegarem no Trombetas. Tenho as informações sobre o motor, o leme e o aproamento. No momento, estou navegando com ele para ver se as boias de sinalização estão bem posicionadas e para sentir o navio durante a manobra, vendo se está tudo ok”, explica o engenheiro naval da FHM, Ernesto de Sá Coutinho Júnior, durante testes realizados no Centro de Simulação Aquaviária – CSA.

Qualquer erro na execução da manobra pode ter consequências, o que requer o máximo de cuidado de todos os profissionais envolvidos no estudo. “Se o marítimo se distrair em alguma correnteza, com ventos fortes, por exemplo, a embarcação pode perder a máquina, o leme e o controle, de alguma forma, e acabar saindo dessa área sinalizada com as boias”, explica Tamara Furtado, designer responsável pela criação dos cenários nos simuladores full mission da FHM.

Depois de pronto, o estudo servirá de referência para diversos profissionais do setor aquaviário. O Prático Walfran Torres, que opera na Zona de Praticagem 1, localizada na região norte do País, conhece bem os meandros da navegação brasileira. Oficial de Náutica por formação, ele chegou a embarcar por alguns anos como marítimo e fez parte do quadro complementar dos Oficiais da Armada, além de já ter sido consultor da FHM. A bagagem adquirida nos diferentes setores pelos quais passou expandiu a sua visão sobre a importância da segurança em cada um.

“Na FHM, eu fazia o acompanhamento dos projetos dos navios que ingressavam aqui. Fiz um lá de Madre de Deus, um Suezmax, que queria entrar no terminal. Desse modo, eu conheci o trabalho dos Práticos e a relação deles com os projetos. Assim como o papel da Autoridade Marítima, que verifica a permissibilidade de um navio ingressar em um porto”, relatou Torres.

Lamentavelmente, as ações de prevenção de acidentes não são conduzidas com a necessária diligência. Um claro exemplo disso foi o acidente ocorrido no Canal do Panamá, em julho de 2016. Dois meses antes, a FHM havia entregado à Federação Internacional dos Trabalhadores em Transportes – ITF o resultado de um estudo independente que apontava riscos de colisão no canal, onde eram realizadas obras de expansão para permitir a passagem de grandes cargueiros. O alerta foi ignorado pela Autoridade do Canal do Panamá e o navio porta-contêineres Xin Fei Zhou, da Cosco, acabou colidindo com a parede da eclusa Agua Clara. O navio, de 335m de comprimento e 42.84m de boca, chocou-se com a estrutura, sofrendo uma avaria no casco, acima da linha d’água.

A simulação mostra o trajeto de uma embarcação no Rio Trombetas, com risco de colisão após a curva, antes do Canal do Bacabal

Além dos estudos citados acima, a FHM desenvolveu outros projetos importantes para a navegação brasileira, como o que avaliou, em 2009, o comportamento de um Valemax, navio mineraleiro que iria de Ponta da Madeira, no Maranhão, para Tubarão, no Espírito Santo. “Até então ele era o maior navio de minério do mundo. Os portos brasileiros não estavam adequados para recebê-lo. Tivemos de estudar a viabilidade portuária para ele poder passar com segurança. Após o nosso parecer, foram feitas obras de alargamento do canal em Tubarão e aumento da profundidade, para poder receber esse navio”, destacou o coordenador da FHM Mario Calixto.

O portfólio de consultorias da FHM inclui, ainda, terminais portuários em Aratu (BA), Pecém (CE), Santos (SP), São Francisco do Sul (SC) e Rio de Janeiro (RJ).

“Trata-se de um trecho bem peculiar do Rio Trombetas e estamos estudando o comportamento da embarcação nele. Vamos observar como a manobra está sendo feita, apontar os riscos e comparar com os procedimentos adotados anteriormente.”